Instituto PimentaAuditoria e Consultoria
WhatsApp

Guia · Gestão de restaurante

DRE x fluxo de caixa: lucro no papel, caixa vazio

A DRE usa o regime de competência, e o caixa, o regime de caixa. Entender essa diferença é o primeiro passo para não ser pego de surpresa.

Por Marco Túlio Pimenta, Instituto PimentaAtualizado em 19/09/20268 min de leitura

Sim, é possível: a DRE usa regime de competência, registrando receita e despesa quando o fato ocorre, enquanto o caixa usa regime de caixa, registrando só quando o dinheiro entra ou sai. Somado a estoque parado, prazo de cartão e impostos a pagar depois, isso produz lucro no papel sem dinheiro disponível.

Por que a DRE pode mostrar lucro e o caixa estar no vermelho?

A causa é simples de nomear e mais difícil de sentir no dia a dia: a DRE (Demonstração do Resultado do Exercício) e o fluxo de caixa medem coisas diferentes. A DRE mede resultado econômico, ou seja, se a operação gerou mais receita do que despesa naquele período, independentemente de o dinheiro já ter entrado ou saído da conta. O fluxo de caixa mede liquidez, ou seja, se sobrou dinheiro de fato na conta depois de tudo que entrou e saiu.

Um exemplo simples ajuda a visualizar: uma venda de R$ 300 no cartão parcelado em três vezes entra inteira na receita da DRE no mês da venda, porque o serviço foi prestado ali. Mas no caixa, esses R$ 300 chegam em três parcelas, em meses diferentes. No mês da venda, a DRE já contou o valor cheio; o caixa só recebeu um terço.

O que é regime de competência e o que é regime de caixa?

Regime de competência é a regra contábil usada para montar a DRE: receitas e despesas são reconhecidas no período em que o fato gerador acontece (a venda foi feita, o insumo foi consumido, o serviço foi prestado), não no período em que o dinheiro efetivamente circula. Se você já monta a DRE do restaurante mês a mês, esse é o regime que está por trás dela; vale revisar como montar e ler essa demonstração se a estrutura ainda não está clara.

Regime de caixa é a lógica do fluxo de caixa: só entra no relatório o que de fato movimentou a conta bancária ou o caixa físico naquele período, seja recebimento de venda, pagamento de fornecedor, folha, impostos ou parcelas de empréstimo. Nenhum dos dois regimes está errado; eles respondem perguntas diferentes. A DRE responde se o negócio é lucrativo. O caixa responde se há dinheiro disponível para pagar as contas desta semana.

Quais fatores causam esse descasamento em bar e restaurante?

Na prática de bar e restaurante, um punhado de fatores concentra quase todo o descasamento entre DRE e caixa. Vale conhecer cada um para saber onde procurar quando os números não baterem.

Qual a fórmula da DRE e qual a do fluxo de caixa?

A estrutura simplificada da DRE de um restaurante, por extenso, segue esta sequência: Receita Bruta de Vendas, menos Deduções sobre Vendas (impostos incidentes e devoluções), resulta em Receita Líquida; Receita Líquida menos Custo da Mercadoria Vendida (o CMV) resulta em Lucro Bruto; Lucro Bruto menos Despesas Operacionais (pessoal, aluguel, energia, marketing, depreciação e afins) resulta no Resultado Operacional; Resultado Operacional menos Despesas Financeiras resulta no Lucro antes dos Impostos sobre o Lucro; e, por fim, Lucro antes dos Impostos menos os Impostos sobre o Lucro resulta no Lucro Líquido do período. Repare que a depreciação entra como despesa operacional, antes do Resultado Operacional, e não junto das Despesas Financeiras.

O fluxo de caixa segue uma lógica diferente, por extenso: Saldo Inicial de Caixa, mais Entradas de Caixa do período (recebimento de vendas à vista, recebimento de parcelas de cartão de vendas anteriores e outros recebimentos), menos Saídas de Caixa do período (pagamento a fornecedores, folha de pagamento, impostos efetivamente pagos, parcelas de dívida e investimentos pagos), resulta no Saldo Final de Caixa. Repare que nenhuma das duas fórmulas usa os mesmos números da outra no mesmo momento; é exatamente esse descompasso de tempo que gera a sensação de lucro no papel e caixa vazio.

Exemplo ilustrativo: lucro na DRE, caixa vazio no mesmo mês

O exemplo a seguir é hipotético, só para tornar o mecanismo visível; nenhum valor corresponde a um caso real.

Suponha um restaurante que fatura R$ 100.000 em vendas no mês, já como receita líquida (sem deduções adicionais, para simplificar). O CMV apurado é R$ 32.000, o que resulta em Lucro Bruto de R$ 68.000. As despesas operacionais somam R$ 45.000, já incluindo a depreciação do período, o que resulta em Resultado Operacional de R$ 23.000. Não há despesas financeiras neste exemplo, então o Lucro antes dos Impostos também é R$ 23.000. Os impostos sobre o lucro ficam em R$ 3.000, e o Lucro Líquido final na DRE fecha em R$ 20.000. Até aqui, tudo parece saudável.

Mas, nesse mesmo mês, três coisas aconteceram fora da DRE: o restaurante comprou R$ 15.000 a mais de estoque do que consumiu, pagando à vista, para se preparar para um evento do mês seguinte; apenas 65% das vendas do mês entraram de fato no caixa, porque o restante foi vendido no cartão parcelado e só vai cair nas próximas semanas; e uma parcela de R$ 8.000 de um empréstimo tomado meses atrás venceu e foi paga. Neste exemplo específico, sem juros relevantes no mês, o valor inteiro da parcela é amortização de principal e não aparece como despesa na DRE; se houvesse juros embutidos na parcela, só essa parte apareceria como despesa financeira, e o restante, o principal, continuaria fora da DRE. Resultado: apesar do lucro de R$ 20.000 na DRE, o caixa desse mês pode fechar negativo, simplesmente porque o dinheiro que efetivamente entrou foi menor do que o que efetivamente saiu.

Exemplo ilustrativoExemplo ilustrativo (valores hipotéticos): Receita líquida R$ 100.000 − CMV R$ 32.000 = Lucro Bruto R$ 68.000. Lucro Bruto R$ 68.000 − Despesas operacionais (já com depreciação) R$ 45.000 = Resultado Operacional R$ 23.000. Sem despesas financeiras neste exemplo, Lucro antes dos Impostos = R$ 23.000. Menos Impostos sobre o lucro R$ 3.000 = Lucro Líquido na DRE de R$ 20.000. No caixa do mesmo mês: estoque extra pago à vista R$ 15.000, apenas 65% das vendas recebidas de fato, e parcela de empréstimo (só principal, neste exemplo sem juros) paga R$ 8.000. Caixa pode fechar negativo mesmo com lucro na DRE.

Como acompanhar DRE e fluxo de caixa juntos, sem se perder?

A saída não é escolher um relatório e abandonar o outro; é olhar os dois lado a lado e entender o que cada divergência está dizendo. Quando a DRE dá lucro e o caixa fecha apertado, o problema costuma estar em prazo (a receber ou a pagar), não em rentabilidade. Quando a DRE dá prejuízo e o caixa ainda está positivo, geralmente é questão de tempo até o caixa sentir também; vale olhar os sinais de que o restaurante está perdendo dinheiro antes que isso aconteça.

Também ajuda ter uma noção clara de quanto o restaurante precisa faturar por dia para cobrir seus custos fixos e variáveis, o chamado ponto de equilíbrio, porque esse número dá o piso abaixo do qual nem a DRE nem o caixa vão fechar bem. E, na rotina, uma lista curta de indicadores olhados toda semana, não só no fechamento do mês, ajuda a pegar o descasamento a tempo de ajustar o plano de pagamento antes que ele vire um aperto.

  1. Feche a DRE do mês pelo regime de competência, incluindo tudo o que foi gerado no período, mesmo o que ainda não foi pago ou recebido.
  2. Monte o fluxo de caixa à parte, só com o que realmente entrou e saiu da conta naquele período.
  3. Compare os dois relatórios: se a DRE deu lucro e o caixa fechou negativo, procure a diferença em estoque comprado, prazo de recebimento de cartão e parcelas a pagar.
  4. Projete o fluxo de caixa dos próximos 30 a 60 dias, considerando os recebíveis de cartão que ainda vão cair e as contas já assumidas.
  5. Repita essa leitura toda semana, não só no fechamento do mês, para não ser pego de surpresa no meio do caminho.

O que levar deste guia

Perguntas frequentes

Lucro na DRE significa que o caixa está bem?
Não necessariamente. A DRE mostra o resultado econômico do mês pelo regime de competência, incluindo vendas ainda não recebidas e despesas já incorridas mas não pagas. O caixa mostra apenas o que entrou e saiu de fato da conta. Os dois podem apontar direções diferentes no mesmo período, principalmente quando há parcelamento no cartão, estoque parado ou impostos a pagar depois.
Por que pagar fornecedor à vista pesa mais no caixa do que na DRE?
Porque na DRE a despesa é reconhecida quando a mercadoria é consumida, não quando é paga. Se o restaurante compra e paga à vista um lote grande de estoque que só vai ser vendido nas semanas seguintes, o caixa sente o impacto imediatamente, mas a DRE só reconhece esse custo aos poucos, conforme o CMV do período for apurado.
Depreciação entra no cálculo do caixa?
Não. A depreciação é uma despesa operacional que reduz o lucro na DRE para refletir o desgaste de equipamentos e reformas ao longo do tempo, mas não representa saída de dinheiro no mês. Ao montar o fluxo de caixa, a depreciação deve ser desconsiderada, e o gasto real com o equipamento aparece no caixa apenas no mês em que foi efetivamente pago.
Fluxo de caixa negativo em um mês sempre significa prejuízo?
Não necessariamente. O caixa pode ficar negativo em um mês por causa de um investimento pontual, do pagamento de uma dívida antiga ou da compra antecipada de estoque, mesmo com a DRE mostrando lucro. Olhar só o saldo do caixa de um mês isolado, sem cruzar com a DRE e com a projeção dos meses seguintes, pode levar a uma leitura equivocada da situação.
Com que frequência devo olhar a DRE e o fluxo de caixa?
A DRE, pelo menos uma vez por mês, depois do fechamento. O fluxo de caixa pede frequência maior, porque entradas e saídas acontecem todos os dias: o ideal é ter uma projeção atualizada semanalmente, olhando pelo menos os próximos 30 dias, para enxergar com antecedência se algum mês vai apertar.
Assinatura de Marco Túlio Pimenta
Marco Túlio Pimenta

Mais de 20 anos de experiência em comércio, restaurantes, consultoria financeira, criação de software e tecnologia. Conduz a Consultoria de Gestão do Instituto Pimenta e é autor de 17 livros sobre empreendedorismo e finanças.

Sistema O Consultor

E se esse registro fosse a rotina, e não mais uma tarefa?

A distância entre lucro e caixa aparece quando as duas coisas saem do mesmo registro, e não de duas planilhas. No Sistema O Consultor, esse registro é a própria rotina da casa: compras, estoque e caixa no mesmo lugar, e o atendimento respondendo e marcando no WhatsApp. A contratação é por módulo, você mesmo configura e não tem fidelidade.

Por módulo · você mesmo configura · sem fidelidade