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Guia · Gestão de restaurante

Ficha técnica de prato: como precificar

O documento que transforma cada prato do cardápio em números claros de custo, CMV e preço de venda.

Por Marco Túlio Pimenta, Instituto PimentaAtualizado em 19/09/20266 min de leitura

Ficha técnica de prato é o documento que lista cada insumo do prato, com quantidade, unidade, custo e perda, até chegar ao custo total e ao CMV do prato. É esse custo que define o preço de venda para um CMV alvo, e a ficha precisa ser atualizada sempre que o preço de um insumo mudar.

O que é ficha técnica de prato e para que ela serve?

A ficha técnica é a receita do prato escrita em formato de planilha: cada insumo usado, a quantidade exata, a unidade de medida e o custo daquele insumo. Ela cumpre duas funções ao mesmo tempo. Na cozinha, padroniza o preparo, o prato sai igual independente de quem está na chapa naquele dia. No financeiro, é a base para saber quanto custa produzir cada prato e, a partir disso, decidir o preço de venda com algum critério, em vez de copiar o preço do concorrente ou definir por sensação.

Sem ficha técnica, o dono só descobre que um prato dá prejuízo quando olha o CMV do restaurante inteiro no fim do mês, e nesse ponto já não dá para saber qual prato específico puxou o número para baixo. A ficha individual é o que permite abrir essa conta prato a prato.

Como montar a ficha técnica passo a passo?

Cada linha da ficha técnica representa um insumo do prato. Os campos mínimos são:

Como calcular o custo do prato e o CMV do prato?

O primeiro passo é levar a perda em conta, porque o preço pago é sempre sobre o insumo bruto, mas o que vai no prato é a quantidade líquida. A fórmula é:

Quantidade bruta necessária = quantidade líquida usada dividida por (1 menos o percentual de perda)

Com a quantidade bruta em mãos, multiplica-se pelo custo por unidade de compra para achar o custo daquele insumo no prato. Somando o custo de todos os insumos, chega-se ao custo total do prato:

Custo do prato = soma do custo de cada insumo (quantidade bruta necessária multiplicada pelo custo por unidade)

A partir do custo do prato, chega-se ao CMV do prato específico, que é:

CMV do prato = (custo do prato dividido pelo preço de venda do prato) multiplicado por 100

Esse CMV do prato é diferente do CMV geral do restaurante, que soma o estoque inicial de insumos às compras do período, subtrai o estoque final, divide o resultado pela receita total do período e multiplica por 100 para chegar ao percentual. Supondo estoque estável no período (sem grande variação entre o que havia no início e o que sobrou no fim), o CMV geral se aproxima de compras dividido por receita, mas essa simplificação só vale nesse caso, o cálculo correto sempre passa pela variação de estoque. Vale entender os dois cálculos lado a lado, porque o CMV geral pode estar dentro da meta enquanto um prato específico está sangrando margem sem ninguém perceber.

Como definir o preço de venda a partir de um CMV alvo?

Depois de ter o custo do prato, o caminho inverso é achar o preço de venda que resulta no CMV que a casa definiu como meta para aquela categoria. A fórmula é:

Preço de venda = custo do prato dividido pelo CMV alvo (em número decimal)

Se a meta de CMV para pratos principais é 30%, o CMV alvo em decimal é 0,30. Categorias diferentes costumam ter metas diferentes: bebidas em geral suportam um CMV mais baixo, sobremesas e entradas variam conforme a casa. Isso é uma referência para pensar a meta, não uma regra fixa, cada casa define a faixa de CMV que faz sentido para o seu mix e para a sua margem de operação como um todo.

Vale lembrar que o preço calculado é o ponto de partida, não a palavra final. Ele ainda passa pelo filtro do que o mercado aceita pagar, do posicionamento do cardápio e do que os concorrentes cobram. A ficha técnica ajuda a evitar que essa decisão comercial seja tomada sem saber o piso abaixo do qual o prato começa a dar prejuízo.

Por que atualizar a ficha técnica quando o insumo sobe?

A ficha técnica não é um documento que se monta uma vez e arquiva. O preço dos insumos muda, às vezes toda semana, e se o custo por unidade cadastrado na ficha fica desatualizado, o CMV calculado passa a mentir: mostra uma margem que não existe mais na prática.

Isso costuma acontecer de forma silenciosa. Suponha, por exemplo, que o preço da carne suba 8% e o do azeite suba 12%, um cenário hipotético só para ilustrar: se o preço do prato no cardápio continuar o mesmo por meses porque ninguém voltou para recalcular, o efeito só aparece depois, no CMV geral do restaurante ou na DRE do período, quando já se perdeu margem em centenas de pratos vendidos nesse intervalo.

O ideal é revisar a ficha técnica sempre que um insumo relevante mudar de preço na compra, ou pelo menos em uma revisão periódica curta, sem esperar o fechamento mensal para descobrir a distorção. Isso conecta diretamente com o acompanhamento de indicadores toda semana, e não só no fechamento do mês.

Exemplo de ficha técnica de um prato simples

O exemplo a seguir é ilustrativo, com valores fictícios só para mostrar a conta. Suponha um prato de peito de frango grelhado com arroz e legumes.

Exemplo ilustrativoSuponha os seguintes insumos e custos (valores fictícios, apenas para ilustrar o cálculo): - Peito de frango: 200 g líquidos no prato, perda de 8% no preparo. Quantidade bruta necessária = 200 g ÷ (1 − 0,08) = 217,4 g (0,2174 kg). Custo por kg comprado: R$ 22,00. Custo no prato = 0,2174 kg × R$ 22,00 = R$ 4,78. - Arroz: 150 g líquidos, sem perda relevante. Custo por kg: R$ 6,00. Custo no prato = 0,150 kg × R$ 6,00 = R$ 0,90. - Legumes (mix): 100 g líquidos, perda de 15% em casca e talo. Quantidade bruta = 100 g ÷ (1 − 0,15) = 118 g. Custo por kg: R$ 8,00. Custo no prato = 0,118 kg × R$ 8,00 = R$ 0,94. - Temperos e óleo: custo estimado por porção, R$ 0,60. Custo total do prato (exemplo) = R$ 4,78 + R$ 0,90 + R$ 0,94 + R$ 0,60 = R$ 7,22. Se a meta de CMV para pratos principais é 30% (0,30): preço de venda sugerido = R$ 7,22 ÷ 0,30 = R$ 24,07, o que na prática viraria um preço redondo de cardápio, como R$ 24,90 ou R$ 25,00. Conferindo o CMV real com o preço de R$ 25,00: R$ 7,22 ÷ R$ 25,00 × 100 = 28,9%, dentro da meta de 30% definida no exemplo.

O que levar deste guia

Perguntas frequentes

Preciso montar ficha técnica para todos os pratos, até os mais simples?
O ganho tende a ser maior justamente nos pratos que parecem simples, porque são esses que costumam ter o custo subestimado de cabeça. Uma ficha técnica leva poucos minutos para montar depois que os insumos já estão com custo cadastrado. Priorizar primeiro os pratos de maior saída ajuda a enxergar o impacto mais rápido, mas o ideal é cobrir o cardápio inteiro.
Qual o CMV ideal para um prato de restaurante?
Não existe um número único válido para qualquer casa. O CMV alvo depende da categoria do prato, do posicionamento do cardápio e da estrutura de custo fixo do restaurante como um todo. Faixas entre 28% e 35% para pratos principais são comuns como referência de mercado, mas cada casa precisa calcular a própria meta olhando a DRE e o ponto de equilíbrio, não copiar um número de fora.
Qual a diferença entre o CMV do prato e o CMV do restaurante?
O CMV do prato mede o custo de insumo de um item específico do cardápio sobre o preço de venda dele. O CMV do restaurante soma o estoque inicial de insumos às compras do período, subtrai o estoque final, divide o resultado pela receita total do período e multiplica por 100, incorporando perdas, desperdício e variações de mix de venda que a ficha técnica isolada não captura. Os dois se complementam: o CMV do prato ajuda a precificar, o CMV geral mostra se essa precificação está se sustentando na prática.
O que fazer quando o insumo sobe de preço e o prato já está no cardápio?
O primeiro passo é atualizar a ficha técnica com o novo custo e recalcular o CMV daquele prato no preço atual. A partir daí é uma decisão comercial: ajustar o preço do prato, trocar de fornecedor, revisar a quantidade da porção ou aceitar operar com CMV mais alto naquele item por um tempo. O que não compensa é deixar a ficha desatualizada e continuar vendendo sem saber qual das opções está em jogo.
Ficha técnica também serve para bebida e drink, ou só para prato de cozinha?
O mesmo raciocínio de insumo, quantidade, perda e custo se aplica a bebidas e drinks, trocando apara de carne por evaporação, gelo e dose de destilado. A lógica de calcular o custo e comparar com o CMV alvo da categoria é idêntica.
Assinatura de Marco Túlio Pimenta
Marco Túlio Pimenta

Mais de 20 anos de experiência em comércio, restaurantes, consultoria financeira, criação de software e tecnologia. Conduz a Consultoria de Gestão do Instituto Pimenta e é autor de 17 livros sobre empreendedorismo e finanças.

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