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Guia · Gestão de restaurante

Sinais de que o restaurante está perdendo dinheiro

Seis sinais que costumam aparecer antes do prejuízo bater na conta, e o que olhar em cada um deles.

Por Marco Túlio Pimenta, Instituto PimentaAtualizado em 19/09/20267 min de leitura

Os sinais aparecem antes do prejuízo chegar à conta: o CMV sobe aos poucos sem explicação, as compras são feitas no olho, quebras e perdas não são anotadas, o prato mais vendido tem margem apertada, o caixa não fecha certo no fim do dia e o preço do cardápio nunca foi calculado, só copiado do concorrente.

Como perceber que o CMV está subindo antes de ver no fechamento do mês?

O CMV, custo da mercadoria vendida, é o quanto o restaurante gasta em insumos para gerar a receita de um período. A fórmula é simples: CMV em reais é igual ao estoque inicial mais as compras do período menos o estoque final. Para virar percentual, divide-se o CMV em reais pela receita de vendas do mesmo período e multiplica-se por 100.

O problema é que esse número só aparece de verdade no fechamento mensal, e a maioria dos donos só olha o fechamento quando o mês já foi ruim. O sinal chega antes, no dia a dia: o dinheiro do caixa parece render menos para as mesmas compras, o estoque acaba mais rápido do que deveria, ou o fornecedor reajusta um insumo e ninguém repassa isso para o preço do prato.

Exemplo ilustrativoSuponha um restaurante fictício que fatura R$ 100 mil em um mês e gasta R$ 32 mil em insumos: o CMV do período é de 32%. Se no mês seguinte, com a mesma operação, o CMV sobe para 36% sem nenhuma mudança no cardápio, isso indica que algo mudou do lado da compra ou do desperdício, não da venda.

Comprar "no olho", sem cotação nem ficha técnica, é sinal de prejuízo?

Comprar no olho significa decidir quantidade e fornecedor pela experiência e pela urgência do momento, sem comparar preço por unidade de medida entre fornecedores e sem saber, pela ficha técnica de cada prato, quanto de cada insumo a cozinha realmente consome. Isso não é falha de caráter, é falta de informação organizada, e é um dos sinais mais comuns de restaurante que perde dinheiro sem perceber.

O risco não é pagar caro uma vez. É pagar um pouco mais caro toda semana, em vários insumos ao mesmo tempo, sem que isso apareça como um problema único e visível. Some pequenas perdas de margem em dezenas de itens de compra e o resultado no fim do mês pode ser relevante, mesmo com o salão cheio.

Perda e quebra sem registro: para onde vai esse dinheiro?

Toda operação de bar ou restaurante tem perda: louça e taça que quebram, insumo que vence antes de ser usado, sobra de preparo que não pode voltar ao estoque, prato que sai errado e não pode ser servido. O problema não é a perda existir, é ela não ser registrada em lugar nenhum. Sem registro, essa perda não aparece na DRE como uma linha específica, ela some dentro do CMV geral e parece apenas "compra normal".

Isso é grave porque o dono nunca sabe se está comprando demais, cozinhando com técnica ruim ou apenas tendo azar. Sem dado, toda explicação vira palpite.

Exemplo ilustrativoSuponha, de forma ilustrativa, um restaurante que descarta, por semana, um valor pequeno em insumos vencidos e mais um valor parecido em pratos que voltaram da cozinha. Isoladamente, cada item parece insignificante. Somado ao longo de quatro semanas, esse total pode representar um ponto inteiro de CMV, que nunca vai aparecer como "perda" em nenhum relatório se ninguém anotar.

Por que o prato mais vendido pode ser o que menos dá lucro?

Volume de venda e margem são coisas diferentes. Um prato pode ser o campeão de pedidos e, ainda assim, ter a pior margem de contribuição do cardápio, principalmente quando o preço foi fixado há tempos e o custo dos insumos subiu sem repasse, ou quando a ficha técnica nunca foi atualizada.

A margem de contribuição de um prato é o preço de venda menos os custos variáveis ligados a ele, o que inclui o custo da ficha técnica (os insumos) e também impostos sobre a venda, taxa de cartão e, quando houver, comissão de aplicativo de delivery. Em percentual, é essa margem dividida pelo preço de venda, vezes 100. Quando esse número é baixo justamente no prato mais pedido, o restaurante está, na prática, trabalhando muito para ganhar pouco naquele item, e sustentando a operação com os pratos de menor saída.

O guia sobre ficha técnica de prato e como precificar detalha essa conta item a item.

Exemplo ilustrativoSuponha, de forma ilustrativa, um prato vendido a R$ 45, com custo de ficha técnica (insumos) de R$ 22,50: considerando apenas esse custo, a margem de contribuição fica em R$ 22,50, ou 50%: impostos sobre a venda e taxa de cartão reduziriam esse percentual ainda mais na prática. Se o insumo principal sobe de preço e o custo da ficha passa para R$ 29,25 sem reajuste do preço de venda, essa margem simplificada cai para 35%, mesmo vendendo a mesma quantidade de pratos.

Caixa que não fecha é sinal de que o restaurante está perdendo dinheiro?

Um erro pontual de troco não é sinal de nada grave. O sinal de atenção é o caixa não bater com frequência, ou bater sempre para menos, sem explicação clara. Isso costuma indicar um problema estrutural: sangria feita sem registro, desconto dado no balcão sem autorização, comanda cancelada sem justificativa, ou divergência entre o que a maquininha registrou e o que o PDV lançou.

Vale lembrar que caixa fechado certo não significa restaurante lucrativo. Uma coisa é o dinheiro que entra e sai do caixa, outra é o resultado contábil do período, com todo custo e despesa considerados. Um guia à parte trata da diferença entre a DRE e o fluxo de caixa, que é onde muitos donos se enganam ao achar que "o caixa fechou, então está tudo bem".

Decidir o preço do cardápio no feeling é um risco real?

Preço definido por comparação com o concorrente ou por "o que o cliente costuma pagar" ignora o custo real de produzir aquele prato específico. Funciona até funcionar: o problema aparece quando o mix de vendas muda, quando um insumo sobe de preço, ou quando o restaurante cresce e o erro de precificação se multiplica pelo volume.

A forma mais direta de precificar é a partir do CMV-alvo: o preço de venda sugerido é igual ao custo da ficha técnica dividido pelo CMV-alvo, em decimal. Se a meta de CMV para aquele prato é 30%, o preço sugerido é o custo da ficha dividido por 0,30.

Os guias sobre como calcular o CMV do restaurante e sobre ponto de equilíbrio, quanto faturar por dia, complementam essa conta, mostrando como o CMV de cada prato se conecta ao resultado do mês inteiro.

Exemplo ilustrativoSuponha, de forma ilustrativa, uma ficha técnica com custo de R$ 18 e CMV-alvo de 30%: o preço sugerido é R$ 18 dividido por 0,30, ou seja, R$ 60. Se o dono cobra R$ 45 porque "é o que o concorrente cobra", o CMV real daquele prato passa a ser 40%, dez pontos acima da meta, mesmo que o prato venda bem.

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Perguntas frequentes

Se o caixa fecha certo todo dia, o restaurante ainda pode estar perdendo dinheiro?
Sim. O caixa fechado certo mostra que o dinheiro que entrou bate com o que foi registrado no dia, mas não mostra se o CMV está alto, se as despesas fixas cresceram ou se a margem dos pratos caiu. O resultado é medido pela DRE, que considera custo, despesa e receita do período, não pelo saldo de caixa do dia. Por isso um restaurante pode fechar o caixa certinho todos os dias e ainda assim estar no prejuízo no fim do mês.
Com que frequência devo calcular o CMV do restaurante?
O ideal é acompanhar o CMV pelo menos uma vez por semana, mesmo de forma simplificada, e fazer o fechamento completo todo mês. Quanto mais tempo passa entre uma medição e outra, mais difícil é achar a causa de uma variação, porque várias coisas podem ter mudado ao mesmo tempo: compra, receita, desperdício.
Uma taça quebrada ou um prato queimado de vez em quando faz diferença de verdade?
Isoladamente, quase nunca. O problema é a soma ao longo do mês, somada à falta de registro. Sem anotar quebra e perda, o dono não consegue saber se aquilo é um evento raro ou um padrão que está comendo a margem toda semana. O primeiro passo não é eliminar a perda, é registrá-la.
Meu prato mais vendido não pode estar dando prejuízo, ele é o carro-chefe da casa.
Vender muito e dar margem boa são coisas diferentes. É comum o prato mais popular ter o preço represado há tempos, por medo de perder cliente, enquanto o custo dos insumos que ele usa subiu. Vale calcular a margem de contribuição desse prato especificamente, com a ficha técnica atualizada, antes de descartar a possibilidade.
Preciso de um sistema para perceber esses sinais, ou dá para fazer numa planilha?
Dá para começar numa planilha, e para muitos restaurantes pequenos isso já ajuda bastante. O limite da planilha aparece quando o volume de pratos, compras e vendas cresce e ninguém tem tempo de atualizar tudo manualmente toda semana. Nesse ponto, vale avaliar o que um sistema de gestão pensado para restaurante deve oferecer.
Assinatura de Marco Túlio Pimenta
Marco Túlio Pimenta

Mais de 20 anos de experiência em comércio, restaurantes, consultoria financeira, criação de software e tecnologia. Conduz a Consultoria de Gestão do Instituto Pimenta e é autor de 17 livros sobre empreendedorismo e finanças.

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